[RESENHA] Inferno – O filme

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Resenha escrita por Julianna Costa

 

Inferno

 

O incômodo que eu sinto com os livros de Dan Brown – e consequentemente com suas adaptações cinematográficas – é a constante sensação de repetição. Um mistério disposto através de quebra-cabeças, um pedido de ajuda ao professor que dá identidade a franquia, uma ajuda feminina oportuna que serve apenas como sidekick temporário, e um ou dois plot twists que são facilmente antecipados – pelo mesmo motivo de repetição – mas que não darei nomes aqui, para evitar spoilers.

Em Inferno, o professor e simbologista Robert Langdon está na Itália, perseguindo pistas deixadas pelo bilionário Bertrand Zobrist, viciado em Dante Alighieri, que pretende disseminar um vírus capaz de exterminar metade da população humana.

A motivação do bilionário é uma coisa meio Ozymandias – para os fãs de Watchmen – só que bem menos complexa (ou interessante). Zobrist acredita que o aumento da população é um câncer que vai destruir o mundo e por isso, os números precisam ser radicalmente reduzidos.

Meus principais problemas com esse filme podem ser divididos em três ordens:

1 – O vilão não funciona

Zobrist ameaça o futuro de metade da humanidade, mas, na realidade, em momento algum você realmente sente a iminência do perigo. O modo como o vilão se apresenta é coeso e tranquilo, passando para o espectador uma sensação de razão muito maior que a de loucura.

No entanto, embora a interpretação de Ben Foster pudesse ter sido um pouco mais direcionada nesse quesito, minha principal crítica ao seu personagem ainda é a aleatoriedade que ele impõe à trama.

Não existe uma explicação mais profunda sobre suas intenções ou procedimentos. O filme apenas nos conta que Zobrist quer salvar o mundo porque sim, ele usa Dante Alighieri porque sim e ele deixa pistas porque sim. Claro, há explicações superficiais que justificariam cada uma dessas condutas, mas elas são TÃO superficiais que a lógica rapidamente cai no ridículo.

 

2 – A colcha de retalhos do roteiro

A sequência de eventos do filme não acontece de um modo fluido. Na verdade, é o exato oposto: Em vários dos eventos você se pega, sobressaltado, questionando-se “ok, como diabos esse personagem chegou aí?” ou “POR QUE ele está fazendo isso??”

Não é o tipo de reação que se espera do público em um filme de investigação e mistério.

E quanto mais complexa e cheia de ferramentas a engrenagem fica, mais perceptível se torna o fato de que sua fundação é frágil. A complexidade surge com a intenção de fazer o espectador imaginar que a trama é elaborada e inteligente, mas atinge um efeito contrário com sua enxurrada de falhas na narrativa.

 

3 – O “show and tell”

Um bom filme (uma boa história, na verdade) precisa equilibrar bem o “show and tell”. Ou seja, o que vai ser efetivamente “mostrado” para o espectador, e o que vai ser apenas “contado”. Um filme que mostra todos os acontecimentos corre o risco de ficar muito longo e confuso. Já um filme que conta todos os acontecimentos – sem mostra-los – facilmente se perde entediando o espectador.

Aqui residiu o maior problema da narrativa de Inferno. Para manter o mistério, o diretor resolveu deixar o espectador no escuro completo mostrando-lhe quase nada, apenas para revelar todas as verdadeiras intenções desse ou daquele personagem no momento final de virada, com o “monólogo do vilão” que acontece em mais de um momento do filme – embora nem sempre por vilões. Isso deixa a sensação de que você não está vendo uma história ser contada, mas apenas ouvindo os personagens contarem o que o diretor não conseguiu mostrar.

Torna a experiência enfadonha, desinteressante e, em última instância, ruim.

 

 

SPOILER

Quando li o livro, uma das partes que achei mais ricas foi o final. Para mim, foi um momento realmente surpreendente que tornou a história original do seu próprio modo.

No entanto, no filme, a opção feita foi por mudar completamente o resultado fina, retirando-lhe o que tinha de realmente único para cair no “mais do mesmo”. Realmente, não consigo compreender essa decisão que contribuiu para, na minha opinião, bater o prego final no caixão da franquia.

 

Desestimulante, desinteressante e desconectado, a pior das três adaptações de livros de Dan Brown. Não que as duas primeiras tenham sido obras-primas do cinema, mas pelo menos elas tinham o “inesperado” ao seu favor. Inferno, apesar de tentar inovar aqui e ali, acabou se perdendo em repetição.

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